O Estado
A propósito do aumento do IVA e de como isso afectava o saldo do seu telemóvel, a minha filha de 12 anos deixou sair um: “É injusto! É injusto, o estado tem problemas e nós é que pagamos.” Confesso que logo fiquei surpreendido com a firmeza da sua afirmação e mais ainda quando avançou que, “o estado gasta o que não tem e depois somos nós que temos que pagar” e ainda que “é como um pai que gasta demais e depois vem pedir de volta a mesada aos filhos”.
“É por isso, por termos que pagar, que os problemas do estado são os nossos problemas”, foi a minha resposta. A conversa avançou e agora, aqui de fronte do computador, estou a realizar que porventura há muitos de nós que pensam que o “estado” é uma entidade longínqua e nebulosa com quem temos uma relação de amor/ódio; que amamos quando nos paga os vencimentos, as consultas médicas, quando faz umas auto-estradas até à porta das nossas casas… e que odiamos, quando nos cobra impostos, quando temos que esperar demais pelas tais consultas e quando temos que passar a pagar para ir de auto-estrada até à nossa casa.
Apesar de tudo, da mega estrutura, da, em muitos casos, omnipresença atrofiante e da distancia que cada vez mais sentimos face ao “estado” e às pessoas com responsabilidades primeiras na sua gestão (os políticos), o estado somos nós (Atenção não confundir com o l'État c'est moi de Luis XIV).
O estado somos nós porque,
quando usa mal os recursos que “confiámos” às suas mãos – os nossos impostos e a riqueza acumulada ao longo das gerações antes de nós – somos nós que ficamos mais pobres e temos que trabalhar mais para compensar;
quando se estrutura em organismos desnecessários, redundantes e inoperantes, mesmo quando neles emprega alguns de nós, somos todos a custear essas ineficiências;
quando encomenda e paga algo de absurdo a alguns, mesmo que entre esses estejam alguns de nós, somos todos a pagar;
quando encomenda auto-estradas paralelas e logo de utilidade muito questionável, somos nós que, mais tarde ou mais cedo, teremos que as pagar;
Em suma, quando o estado não funciona, ou funciona mal, somos nós que sofremos as consequências.
O estado somos nós, mesmo os que deixaram de se interessar por “ele” e por aqueles que são eleitos para o gerir.
A situação portuguesa
Portugal viveu em 2010 um dos mais hostis quadros macroeconómicos de que há memória. Ainda assim, Portugal não teve uma bolha imobiliária (como os US, UK e Espanha), não teve um grande impacto de activos tóxicos e não teve que fazer um grande esforço para segurar os seus bancos – quando comparado com algumas outras economias UK, Irlanda, Alemanha por exemplo – contudo, é das economias mais penalizadas no rescaldo da crise mundial.
A razão para este impacto prende-se com o facto de que, quando começou o problema, no segundo semestre de 2007, Portugal no seu todo, i.e., o Governo e o sector privado (empresas e famílias) estavam com níveis de endividamento muito além do razoável. Quando foi necessário um adicional esforço orçamental para segurar a economia, durante o ano de 2008 e 2009, a débil situação financeira de partida vivida em Portugal potenciou o problema mergulhou-nos (a todos) nesta situação.
“It’s the pain after the party”!
Perante este quadro temos que fazer o tal deleveraging de que se fala (desalavancagem de divida) i.e., temos que balancear a divida que assumimos com o valor dos nossos activos. Por outras palavras, vamos todos viver pior do que vivíamos na altura em que suportávamos parte do nosso consumo com endividamento.
O peso vai cair sobre todos, sendo que, natural e desafortunadamente vai doer mais a quem (aliás como acontece com Portugal) está em pior situação inicial.
Há solução?
Como costumo dizer às minhas filhas (de uma forma simplista) o mundo divide-se entre os que contemplam os problemas e os que procuram resolvê-los, e adianto-lhes que nunca devem fazer parte do primeiro grupo.
É certo que por estes dias é ousado ser-se optimista, mas também é claro que temos que arranjar forma de dar a volta a esta nossa situação!

Numa destas manhãs, Gonçalo Quadros da Critical Software dizia na Sic Noticias e cito: “a solução para este desafio está em nós (…) paradoxalmente um cenário de crise como o que hoje vivemos, é talvez o melhor mecanismo para incutir a necessidade das pessoas pensarem por elas próprias e trilharem os seus próprios caminhos.”
Dizia ainda este gestor que há que “agarrar as oportunidades, acreditar que é possível! (…) e depois ser determinado, trabalhar, investir. Se fizermos, se conseguirmos fazer aquilo que gostamos isso acontece quase naturalmente.”
Eu junto que a solução estará em empreender, dentro das empresas e fora delas, tornarmo-nos mais eficientes, mais produtivos, usarmos melhor os recursos que temos, só assim poderemos sair mais rapidamente da crise.
E termino de novo com uma afirmação de Gonçalo Quadros que eu subscrevo plenamente: “A nova geração vai mudar o país, eu estou optimista”, ao que acrescento que o futuro começa agora, connosco.
Nota: Os interessados podem ver a entrevista completa com Gonçalo Quadro em: http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Edicao+da+Manha/2011/1/inovacao-contra-a-crise-as-apostas-de-goncalo-quadros-05-01-2011-84710.htm
P.S. Apesar de este não ser um texto (evidente) sobre recuperação de empresas, procura ser um contributo para a recuperação do ânimo de cada um de nós, para que acreditemos e trabalhemos para dar a volta à nossa situação, à de cada um e logo, também, à situação do país.
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