domingo, 23 de janeiro de 2011

A revolução na microeconomia - ou o contributo de cada um

«Daqui para a frente, Portugal só tem uma coisa a fazer é rezar». Esta frase proferida pelo professor Campos e Cunha, “numa partilha de ideias sobre o actual estado da economia portuguesa”, revela bem o desnorte e a falta de soluções com que nos deparamos.




Vitor Bento, economista de reconhecidas competências, na entrevista publicada na última edição da revista Exame dizia que “não há receitas fáceis” e ainda que “em última instância a saída é o incumprimento”. Com alguma insistência do jornalista sobre as soluções para a economia portuguesa sempre foi adiantando que “uma forma de ultrapassar isto é simular os efeitos de uma desvalorização. O que [por já não termos a gestão da nossas politicas monetária e cambial] não é fácil, porque implica uma deflação importante”. O economista acabou por concluir que “vamos ter de reduzir o nossos nível de Vida” e que “as pessoas vão ter que ser mentalizadas para isso”. Estamos alinhados pois como escrevi, “vamos todos viver pior do que vivíamos na altura em que suportávamos parte do nosso consumo com endividamento[1] na expressão anglo-saxónica “It’s the pain after the party”!






De facto, por força da gravidade da situação e por já não determos o controlo de alguns instrumentos de politica económica, os macroeconomistas estão sem soluções, e com isso há quem já nos encaminhe para a oração. Ainda assim, rezar poderá ser importante porque as expectativas jogam um papel determinante (mas não suficiente) no desenvolvimento económico e rezar pode sustentar uma fé na melhoria da situação, o que pode sustentar alguma mudança de comportamentos. Contudo, sugerir a oração como única “coisa a fazer” é assumir a incapacidade de apontar uma solução e, MAIS GRAVE, é dizer-nos que nada mais pode ser feito além de apelar à intervenção divina, o que, para além de ser profundamente errado (em termos económicos, não sei se o será em termos teológicos) é também muito perigoso.






Apesar de Portugal estar a viver um dos mais agressivos quadros macroeconómicos da sua história, a solução está numa revolução na microeconomia.






Como escreveu o Paul Samelson “a macroeconomia diz respeito às grandezas de maior dimensão – os grandes valores agregados que são o rendimento, o volume de emprego e os níveis de preços, (…) [Mas] no fim de contas, as grandezas de maiores dimensões são compostas de pequenas parcelas”[2]. São o resultado composto e consolidado das acções e comportamentos de todos os agentes económicos: dos indivíduos e, entre outras, das suas decisões de consumir ou não consumir e eventualmente conseguir poupar, de procurar ou não procurar emprego, de aceitar ou não aceitar certo nível de remuneração. É também o resultado consolidado dos comportamentos das empresas, das suas decisões de investir ou desinvestir, de aumentar ou reduzir a produção, do que produzir e para quem e das suas decisões de empregar recursos adicionais ou de prescindir deles. A macroeconomia é pois o resultado das diversas acções e decisões dos vários agentes económicos, i.e., a microeconomia.






Mas então como é que podemos resolver isto com a Microeconomia?






Relembremos que Gonçalo Quadros o CEO da Critical Software disse[3] que: “ paradoxalmente um cenário de crise como o que hoje vivemos, é talvez o melhor mecanismo para incutir a necessidade das pessoas pensarem por elas próprias e trilharem os seus próprios caminhos”. Na sua crónica no Expresso de dia 15 de Janeiro, Miguel Sousa Tavares escreveu que: “Enquanto prevalecer a cultura do “eles” (os responsáveis por todos os males) e “nós” (as vitimas deles), vai ser difícil convencer os portugueses de que não há vida para a frente com a vida que levamos”. Sousa Tavares enfatiza ainda que as empresas que exportam e crescem apesar da crise “são ilhas num oceano de subsidio dependentes, de gente acomodada aos privilégios e direitos adquiridos (…) de sectores empresariais que só sabem viver à sombra do Estado.”






Adicionalmente e no enquadramento do ditado que diz que “a necessidade é a mãe da invenção” podemos inferir que estamos hoje perante uma significativa encruzilhada colectiva. Considerando a falta de soluções macroeconómicas – por exemplo como a desvalorização cambial – que custam a todos e que por isso são mais cómodas de digerir por cada um, podemos almejar a que, perante a necessidade de fazer diferente, a nossa consciência colectiva deixe de ser dicotómica (dividida entre o “nós” e o “eles” de que fala Sousa Tavares) e que cada um passe a relevar o seu próprio papel, o seu contributo para a melhoria da sua própria condição, na melhoria e na resolução dos problemas que afectam a empresa onde trabalha e com isso, contribuir para a criação de padrões mais altos de eficiência e produtividade em Portugal.






Isto é Possível!






Nos 28 casos de recuperação de empresas em Portugal estudados no Livro “Como recuperar empresas em dificuldades” houve este encontro de vontades. As recuperações de empresas estudadas foram possíveis pela vontade e pelo esforço dos seus accionistas, dos seus gestores e dos seus colaboradores. Aconteceram pela aplicação de métodos de trabalho específicos, no “recuperar as regras clássicas da gestão”[4], mas principalmente pela abordagem aos problemas de uma forma que rompe com os estereótipos do que é a gestão em Portugal e do que são as relações entre os diversos stakeholders das empresas portuguesas.






Para além destes casos há outros, há histórias de excelentes desempenhos de empresas portuguesas que, ou conseguiram superar as suas dificuldades, ou estiveram sempre em níveis elevados de desempenho. Há gestores portugueses que em Portugal e no estrangeiro provam que a “má gestão em português” não é uma fatalidade nacional, há trabalhadores (e seus lideres) que entenderam o seu papel e contribuíram empenhadamente, com acções de responsabilidade e pragmatismo, para o futuro das suas empresas.






É importante revelar e relevar estas “ilhas” (como diz Sousa Tavares) que teimam em resistir ao oceano de marasmo e de “subsidio dependentes”, pois essas pessoas, essas empresas, podem não ser comuns, ou antes, podem até ser as excepções mas, também por isso, são os exemplos inspiradores que necessitamos para ousar fazer mais pelas nossas vidas além de ficar à espera que alguém faça algo por nós.






É pois possível fazer diferente, é possível trilhar caminhos diferentes, é possível – sem prejuízo de “rezarmos” – fazer algo pelas nossas vidas e pelo nosso futuro.


Rogério Ferreira do Ó








[2] in Samuelson, P. A., Economia,1981, McGraw-Hill , pág. 391-392
[3] Citado no texto acima (http://turnaroundemportugal.blogspot.com/2011/01/solucao-para-este-desafio-esta-em-nos.html), a partir uma entrevista à SIC Noticias.
[4] Almerindo Marques citado no livro ”Como recuperar empresas em dificuldades”.

sábado, 8 de janeiro de 2011

“A solução para este desafio está em nós”

O Estado


A propósito do aumento do IVA e de como isso afectava o saldo do seu telemóvel, a minha filha de 12 anos deixou sair um: “É injusto! É injusto, o estado tem problemas e nós é que pagamos.” Confesso que logo fiquei surpreendido com a firmeza da sua afirmação e mais ainda quando avançou que, “o estado gasta o que não tem e depois somos nós que temos que pagar” e ainda que “é como um pai que gasta demais e depois vem pedir de volta a mesada aos filhos”.


“É por isso, por termos que pagar, que os problemas do estado são os nossos problemas”, foi a minha resposta. A conversa avançou e agora, aqui de fronte do computador, estou a realizar que porventura há muitos de nós que pensam que o “estado” é uma entidade longínqua e nebulosa com quem temos uma relação de amor/ódio; que amamos quando nos paga os vencimentos, as consultas médicas, quando faz umas auto-estradas até à porta das nossas casas… e que odiamos, quando nos cobra impostos, quando temos que esperar demais pelas tais consultas e quando temos que passar a pagar para ir de auto-estrada até à nossa casa.


Apesar de tudo, da mega estrutura, da, em muitos casos, omnipresença atrofiante e da distancia que cada vez mais sentimos face ao “estado” e às pessoas com responsabilidades primeiras na sua gestão (os políticos), o estado somos nós (Atenção não confundir com o l'État c'est moi de Luis XIV).


O estado somos nós porque,


quando usa mal os recursos que “confiámos” às suas mãos – os nossos impostos e a riqueza acumulada ao longo das gerações antes de nós – somos nós que ficamos mais pobres e temos que trabalhar mais para compensar;


quando se estrutura em organismos desnecessários, redundantes e inoperantes, mesmo quando neles emprega alguns de nós, somos todos a custear essas ineficiências;


quando encomenda e paga algo de absurdo a alguns, mesmo que entre esses estejam alguns de nós, somos todos a pagar;


quando encomenda auto-estradas paralelas e logo de utilidade muito questionável, somos nós que, mais tarde ou mais cedo, teremos que as pagar;


Em suma, quando o estado não funciona, ou funciona mal, somos nós que sofremos as consequências.




O estado somos nós, mesmo os que deixaram de se interessar por “ele” e por aqueles que são eleitos para o gerir.




A situação portuguesa


Portugal viveu em 2010 um dos mais hostis quadros macroeconómicos de que há memória. Ainda assim, Portugal não teve uma bolha imobiliária (como os US, UK e Espanha), não teve um grande impacto de activos tóxicos e não teve que fazer um grande esforço para segurar os seus bancos – quando comparado com algumas outras economias UK, Irlanda, Alemanha por exemplo – contudo, é das economias mais penalizadas no rescaldo da crise mundial.




A razão para este impacto prende-se com o facto de que, quando começou o problema, no segundo semestre de 2007, Portugal no seu todo, i.e., o Governo e o sector privado (empresas e famílias) estavam com níveis de endividamento muito além do razoável. Quando foi necessário um adicional esforço orçamental para segurar a economia, durante o ano de 2008 e 2009, a débil situação financeira de partida vivida em Portugal potenciou o problema mergulhou-nos (a todos) nesta situação.


“It’s the pain after the party”!

Perante este quadro temos que fazer o tal deleveraging de que se fala (desalavancagem de divida) i.e., temos que balancear a divida que assumimos com o valor dos nossos activos. Por outras palavras, vamos todos viver pior do que vivíamos na altura em que suportávamos parte do nosso consumo com endividamento.


O peso vai cair sobre todos, sendo que, natural e desafortunadamente vai doer mais a quem (aliás como acontece com Portugal) está em pior situação inicial.




Há solução?


Como costumo dizer às minhas filhas (de uma forma simplista) o mundo divide-se entre os que contemplam os problemas e os que procuram resolvê-los, e adianto-lhes que nunca devem fazer parte do primeiro grupo.


É certo que por estes dias é ousado ser-se optimista, mas também é claro que temos que arranjar forma de dar a volta a esta nossa situação!


Numa destas manhãs, Gonçalo Quadros da Critical Software dizia na Sic Noticias e cito: “a solução para este desafio está em nós (…) paradoxalmente um cenário de crise como o que hoje vivemos, é talvez o melhor mecanismo para incutir a necessidade das pessoas pensarem por elas próprias e trilharem os seus próprios caminhos.”


Dizia ainda este gestor que há que “agarrar as oportunidades, acreditar que é possível! (…) e depois ser determinado, trabalhar, investir. Se fizermos, se conseguirmos fazer aquilo que gostamos isso acontece quase naturalmente.”


Eu junto que a solução estará em empreender, dentro das empresas e fora delas, tornarmo-nos mais eficientes, mais produtivos, usarmos melhor os recursos que temos, só assim poderemos sair mais rapidamente da crise.


E termino de novo com uma afirmação de Gonçalo Quadros que eu subscrevo plenamente: “A nova geração vai mudar o país, eu estou optimista”, ao que acrescento que o futuro começa agora, connosco.






Rogério Ferreira do Ó












P.S. Apesar de este não ser um texto (evidente) sobre recuperação de empresas, procura ser um contributo para a recuperação do ânimo de cada um de nós, para que acreditemos e trabalhemos para dar a volta à nossa situação, à de cada um e logo, também, à situação do país.